Corpos em trânsito: uma artista brasileira entre geografias improváveis
Existe um tipo específico de deslocamento que não é apenas geográfico. Ele acontece quando um corpo entra em um circuito que não foi feito para ele, ou, pelo menos, não foi pensado a partir dele. É nesse intervalo que a presença deixa de ser apenas participação e passa a ser fricção.
Em abril de 2026, passo a integrar a exposição Architectures of Dream, apresentada pela Cosmoscow Foundation for Contemporary Art, em Moscou, a convite do curador Azu Nwagbogu. Sou a única artista latino-americana na seleção internacional, ao lado de nomes como Satch Hoyt e Kyu Sang Lee. Esse dado, que poderia ser apenas informativo, rapidamente se torna estrutural: ele define não só uma posição, mas um campo de tensões.
Não se trata de representar um território, a ideia de representação já pressupõe uma estabilidade que não me interessa — mas de entender o que significa operar a partir de um corpo que carrega outras formações simbólicas, históricas e espirituais dentro de um circuito que ainda organiza suas trocas por eixos bastante delimitados. Estar ali não é sobre pertencimento, mas sobre negociação.
A proposta curatorial de Architectures of Dream se articula em torno da imaginação como ferramenta de construção de mundo. Não uma imaginação escapista, mas uma prática situada, capaz de produzir formas de continuidade em contextos de ruptura. A ideia de “Happy Survival”, formulada por Nwagbogu, aponta para uma sobrevivência que não se reduz à resistência passiva, mas que mobiliza estética, cultura e invenção como estratégias ativas de existência.
Mas o que acontece quando essa imaginação atravessa geografias tão distintas? E mais: o que acontece quando ela é acionada por corpos que não compartilham as mesmas condições de visibilidade, circulação ou legitimidade?
A presença de apenas três artistas estrangeiros na exposição evidencia que a circulação internacional ainda não opera como fluxo contínuo, mas como exceção cuidadosamente administrada. Nesse sentido, não há ingenuidade possível: estar nesse espaço é também confrontar os limites dessa abertura.
Meu trabalho parte de outras estruturas. Ele se constrói na intersecção entre performance, espiritualidades afro-indígenas e a ideia do corpo como arquivo, não um arquivo fixo, mas um campo de atualização constante, onde memória, gesto e energia se reorganizam. Essas práticas não surgem como tema, mas como método. Elas informam a maneira como eu existo dentro do trabalho e, consequentemente, dentro dos espaços que o trabalho atravessa.
Inserir esse tipo de prática em um circuito internacional como esse não é apenas uma questão de linguagem, mas de fricção epistemológica. O que está em jogo não é só o que é visto, mas o que pode ser reconhecido como conhecimento, como forma válida de construção de mundo.
Se a exposição propõe pensar a arte como uma arquitetura do sonho, talvez seja importante perguntar: quem pode sonhar dentro dessas estruturas? E sob quais condições esse sonho se torna legível?
Meu interesse não está em responder essas perguntas de forma conclusiva, mas em habitá-las. Em entender a prática artística como um campo onde essas tensões não são resolvidas, mas sustentadas, onde o deslocamento não é um problema a ser corrigido, mas um estado produtivo.
Estar em trânsito, nesse caso, não é um acidente. É um posicionamento.